Mana entrevista: Benedita, a cerveja feminista

O diferencial da cerveja sempre foi o discurso feminista, inclusivo, periférico e social. Mas, faltava divulgação, formação e formalização. Principalmente, no que se refere a cerificação do ministério da agricultura e pecuária. O que impedia de a cerveja ser vendida em bares e restaurantes que sofresse a fiscalização. Estava ilegal.

Melissa Barbosa Miranda, 44 anos, empreendedora social, e Eneide Pontes Gama, 49 anos, Gestora Ambiental, criadoras da Cerveja Benedita

A cerveja feminista


Portal da Mana: Qual é o seu nome, idade, profissão e há quantos anos tem um negócio?

Melissa Barbosa Miranda, 44 anos, empreendedora social, e Eneide Pontes Gama, 49 anos, Gestora Ambiental. A Benedita existe há 3 anos.

Portal da Mana: Qual é o nome da empresa ou do negócio?

Cerveja Benedita

Portal da Mana: Histórico

A Cerveja Benedita existe desde 2017; começou no fundo do quintal de um casal: Melissa e Neide. A casa – com escadas e uma pequena edícula – se transformou em uma minifábrica de cerveja artesanal caseira. Os primeiros lotes feitos neste pequeno espaço nem sempre davam certo; às vezes, a cerveja não fermentava da forma correta; às vezes, o envase era prejudicado pela chuva ou pelo calor. Enfim, não havia maneiras de a cervejaria se desenvolver e conseguir escalonar sua produção neste espaço.

Mesmo assim, teve uma boa visibilidade pela mídia – televisiva, internet e escrita –, aparecendo em grandes veículos de comunicação (Globo, Revista Veja, Folha de São Paulo, Nós, Mulheres da Periferia, Periferia em Movimento, Rádio Band News, blogs e podcast), simplesmente por ser um empreendimento periférico, tocado por mulheres com o discurso de economia solidária, igualdade de gênero e de visibilidade LGBTQI+, e em um ambiente prioritariamente masculino e machista.

O diferencial da cerveja sempre foi o discurso feminista, inclusivo, periférico e social. Mas, faltava divulgação, formação e formalização. Principalmente, no que se refere a cerificação do ministério da agricultura e pecuária. O que impedia de a cerveja ser vendida em bares e restaurantes que sofresse a fiscalização. Estava ilegal.

Mesmo assim, durante dois anos, a cerveja Benedita se mantinha vendendo em bares da periferia, feiras e eventos de fundo social como Festival Percurso, Festival da Cooperifa e FELIZS (Feira Literária da zona Sul). Havia pouco de movimento e mesmo assim muito informal e amador, nas redes sociais (Facebook e Instagram). A conta sempre ficava ou no “0x0” ou no vermelho, muito trabalho, muito esforço físico e emocional, por vezes elas pensaram em desistir, mas já era uma marca tão querida e divulgada que não desistiram.

Foi no começo de 2020 que Melissa se envolveu com outros cervejeiros, intitulados “Fora do Eixo”, cervejarias periféricas, sociais e diferenciados da grande massa de cervejarias artesanais.  Por fim surgiu, um curso no SEBRAE, em que Melissa – além de aprender muito sobre cerveja –, conheceu outras mulheres cervejeiras, fez acordos de compras coletivas, produção de lotes social. Então, a Cerveja Benedita saiu do fundo do quintal, passou a alugar um espaço com condições ideias, descobriu que a certificação com o Ministério da Agricultura não era nenhum bicho de 7 cabeças. Finalmente, foi enviada a amostra para análise, e após um mês a Cerveja Benedita já tinha seu “MAPA”.

Agora a produção da cerveja é estável, escalonável, produzida em ambiente controlado e certificada. Mas, chegou a pandemia da COVID19. Eventos? Não havia mais; Bares? Fecharam. Mesmo depois de tanto crescimento a Cerveja Benedita, não tinha pernas para se manter sem renda durante o isolamento social. O caminho era desistir. Então, surgiu a aceleração da ANIP – um grupo de aceleração periférico, patrocinado pela Artemisia, com consultores de diversas áreas. Foram dois meses de formação intensiva. Em que os empreendedores descobriram qual era a própria persona, técnicas de marketing, ferramentas de precificação, gestão financeira, e de redes sociais.

Em maio de 2020, a estratégia de vendas da Benedita mudou do fornecimento de cerveja para bares e venda em feiras, para venda direta para o consumidor final (B2B x B2C). Contratou uma pessoa dedicada a alimentar e monitoras as redes sociais, passou a fazer grupos de transmissão no Whatsapp, regulou as postagens, definiu dia e hora de postagem, estimulando a compra direta.

Os pagamentos – antes feitos em consignação pelos bares e revendedores, muitas vezes, os bares só efetuavam o pagamento quando precisavam repor o estoque, gerando uma inadimplência desastrosa –, passou a ser feito na hora da encomenda. Semanalmente é lançado o cardápio de entregas na semana, até quinta feira são gerados os pedidos da semana, na sexta-feira é envasada a quantidade de cerveja encomendada para ser entregue no sábado. (Just in Time).

No início da retomada de vendas, durante o isolamento social, as entregas eram feitas pelas empreendedoras, mas a logística de carro e depois de uma semana intensa de produção e acompanhamento de processos se tornou muito cansativa e cara. Foi quando as empreendedoras firmaram parceria com PDV (ponto de venda) em regiões estratégicas do município de São Paulo, todos eles geridos por mulheres empreendedoras, e com esse novo formato, conseguiram ampliar seu raio de entrega, hoje as entregas são feitas em toda grande São Paulo, Taboão da Serra, Osasco e ABCD.

Em outubro de 2020, a produção e venda da Cerveja Benedita aconteceu em um ciclo de 15 dias – antes de 70 dias, o volume evoluiu exponencialmente e estão abrindo novos canais de distribuição para o País, via uma empresa de distribuição de produtos veganos.

Portal da Mana: Como ele funciona?

Em decorrência da pandemia, atualmente só trabalhamos com vendas diretas ao consumidor final, as entregas são feitas uma vez por semana.

Portal da Mana: Qual é o objetivo dele?

Levar uma cerveja puro malte de qualidade, a preço justo a casa de todos e ainda trazer assuntos pertinentes neste momento de reflexão contra machismo, racismo, preconceito e fascismo.

Portal da Mana: Como teve a ideia desse negócio?

Eu e Eneide somos casadas há 17 anos; há 15 anos resolvemos dedicar nossas carreiras a temas ambientais e sociais. Nós nos tornamos ativas nos movimentos sociais da periferia, nos quais pegamos amor por temas de melhor qualidade de vida para os moradores da periferia sul de São Paulo; passamos por alimentação orgânica, implantação de coleta seletiva na cidade de Taboão da Serra, descobrimos temas de educação inclusiva, economia criativa e circular e temos nos dedicados a tornar sonhos em realidade. Um trabalho que muitas vezes não sabemos se somos formiguinhas ou Don Quixote, sonhando e gastando muita energia, amor e dedicação por um mundo menos desigual, sempre nos reconhecendo nos nossos parceiros: negros, periféricos, mulheres, retirantes e GLBTQI+. Nesta peregrinação sentimos falta de uma boa cerveja a preço acessível, então nos tornamos empreendedoras da Cerveja Benedita, uma cervejaria feminista que surgiu em 2017 com o objetivo de levar cerveja puro malte à preço justo para periferia de SP.

Portal da Mana: Qual é o diferencial dele? Explicar? Falar dos produtos? Destacar algum deles?

O diferencial da cerveja, sempre foi o discurso feminista, inclusivo, periférico e social; cerveja feita por mulheres; e atendimento personalizado.

Portal da Mana: Como esses produtos funcionam na vida das mulheres? No que eles ajudam? Dar dicas de como usar?

Traz felicidade, descontração, conexões, reflexões. Nosso diferencial é todo o microcosmo da economia solidária e o feminismo; e estamos no sentido de ter a paciência de “explicar” da tão reclamada população que ignora os direitos e pedidos de igualdade feminista e LGBTQI+.

Portal da Mana: De que maneira o seu negócio pode ajudar as mulheres?

  • Geração de renda (terceirizados Beneditas);
  • fortalecimento nas redes de empreendedoras;
  • vendas casadas;
  • parcerias com bares geridos por mulheres; e
  • PDV (pontos de vendas parceiros).

Portal da Mana: Sua vida mudou depois que criou o seu negócio?

Muito! A realização profissional hoje é quase plena, só falta melhorar o faturamento, mas tenho certeza de que isso ocorrerá quando todos tiverem vacinados e os eventos e os bares voltarem a normalidade.

Portal da Mana: De que maneira mudou?

Realização profissional, trabalhar com autogestão é qualidade de vida.

Portal da Mana: Com quanto podemos começar?

R$ 10 mil.

Portal da Mana: Quanto dá para ganhar|?

No nosso caso, ainda estamos recuperando o investimento, estamos retirando por volta de 2k (para duas pessoas), mas sabemos que com escala podemos triplicar esta renda com a estrutura atual.

Portal da Mana: Vive do seu negócio?

Atualmente nosso lucro é bem pequeno, mas temos esperança de que as coisas melhorem no segundo semestre.

Portal da Mana: Como produz?

Cervejaria cigana. A definição de cervejaria cigana é não ter o próprio equipamento e fazer a cerveja em uma cervejaria que alugue o espaço e equipamentos.

Portal da Mana: Quanto tempo demora para produzir?

O processo completo dura entre 15-20 dias.

Portal da Mana: Como se inspira?

 A inspiração vem de pesquisas e estar alinhada com o tema e segmento, foi só depois disto que descobrimos inclusive que não somos personas non gratas no segmento, e isto nos deu o diferencial. A hasteg : #acervejafeitaporelas, foi nosso primeiro moti. Depois disto aparecemos em vários canais de comunicação e somos hoje pioneiras na periferia e como braçadeiras (de brasagem), pois ainda era comum a sommelier de cerveja, mas não fabricantes. Então o que nos inspira são nossos seguidores, e nossa própria história poder inspirar outras pessoas, e principalmente MULHERES.

Portal da Mana: Que dicas daria para quem deseja entrar nesse negócio?

Aprendemos com nossos erros, um plano de negócios bem estruturado é fundamental, a pesquisa de mercado e saber qual o seu diferencial, estabelecer bem estes passos fazem toda a diferença. A aliança com parceiros é uma dica valiosa que só descobrimos depois de mais de dois anos de fundação. Estudar, estudar e continuar estudando, com qualquer veículo é um pulo do gato. O mundo cervejeiro é muito mais amistoso do que prega o mercado. É importante chegar com humildade.

Portal da Mana: Quais planos tem para o futuro?

Pretendemos ter a cerveja Benedita como um produto popular e que carregue em sua essência todo o nosso amor e dedicação, alinhada a nossa política social de igualdade, antifa, feminista e equânime, poder ter portas abertas para podemos dialogar com os temas importantes a sociedade e ainda assim vivermos desta renda. Assim nunca mais iremos trabalhar e apenas distribuir amor e igualdade. Regados a um líquido que pode trazer alegria e consciência de classe.

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